Abarcar a poesia de Pessoa, o poeta de múltiplas personalidades, é uma tarefa complicada e árdua. Tanto a extensão da sua obra, como a heterogeneidade das diferentes personalidades que a assinam, dificultam uma aproximação singela ao verdadeiro pessoa, que não é senão a soma de todos os seus desdobramentos. Poeta sem comparação, encontra-se entre os maiores do século passado e é considerado por muitos o melhor que Portugal teve para oferecer desde Camões, e também um dos mais idiossincrásicos desta terra, cuja vigência permanece inalterável ao longo dos anos. O lisboeta universal é, no entanto, um estranho para os admiradores e biógrafos, pois mal se conhecem dados sobre a vida pessoal. “Não conheço outra vida de escritor tão carente, como tampouco outra que haja sido tão transfigurada pela arte”, diria Robert Bréchon no prefácio da sua biografia de Fernando Pessoa, “estranho estrangeiro”. o seu carácter solitário e retraído garante-lhe, desde a juventude, poucos amigos, poucos amores e pouco reconhecimento, ainda que este último não somente lhe fosse indiferente, como nutria por ele forte desprezo. A fama era para ele ”uma coisa para actrizes e produtos farmacêuticos”. Os seus maiores vícios foram a bebida e o fumo. Também sabemos que era um apaixonado do ocultismo e astrologia, que estudou a cabala e se interessou vivamente pelo misticismo judeu e a maçonaria. A sua educação britânica aproximou-o dos clássicos da literatura anglo-saxónica, que devorou na sua adolescência, e foi muito mais tarde que abordou os autores nacionais. Em 1912, publica pela primeira vez em português vários poemas na revista águia. Alguns anos depois será, junto com o seu amigo mário de Sá Carneiro, o porta-estandarte de movimentos de vanguarda no país como o modernismo ou o futurismo. A criação dos seus célebres heterónimos constituiu um dos mais singulares rasgos da personalidade pessoana. A sua origem remonta à meninice do poeta, pois só contava seis anos quando começou a corresponder-se com um tal chevalier de pás, produto da sua fértil imaginação, ao que se seguiu outro chamado Alexander Shearch. Reservado e incapaz de adaptar-se, Pessoa aproxima-se da vida através dos seus heterónimos, nos quais desenvolve as múltiplas facetas de seu “eu”, dos outros “eu”, que albergam um extenso e complexo leque de pensamentos e atitudes vitais. Os mais importantes: Alberto Caeiro, Álvaro De Campos e Ricardo Reis, foram construídos com tal perfeição que até escreveu as suas biografias.